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Barbari(e)dade

     Na antiguidade, bárbaros eram os povos que não falavam a mesma língua dominante. O estrangeiro, o outro. Depois vemos esse sentido circular em torno daquele que não é civilizado, rude. Em tempos de pandemia, talvez retornemos a esse lugar: não estamos falando a mesma língua. Quase uma média de 1000 mortos por dia no Brasil em decorrência do Coronavírus e os discursos negacionistas circulando em plenitude. Circulando mesmo pelos corpos. Gente na praia, nos bares.      Uma barbaridade. O vírus pode realmente afetar tanto quem é jovem, com histórico de atleta, quanto pessoas com alguma comorbidade. Ou seja, podemos todos ser afetados por ele, o invisível e inaudível. No entanto, é fato também que o acesso e as formas de tratamento não são definitivamente os mesmos. Li relatos de pessoas que foram transferidas de helicópteros (com unidade móvel de UTI) do Nordeste para os melhores hospitais de São Paulo. Ouvi relatos de gente que pôde se isolar em casa de campo, para que não afetas
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Letras e ilustras

Em 2019, fui convidada a participar de um projeto sobre poesia e feminino.  E o que seria o traço ou a escrita de um feminino? Nos experimentos, alguns cacos, alguns voos alçados e o papel ganhando texturas e letras.  Compartilho aqui dois poemas meus que ganharam os contornos de Gustavo R. Dias (Bezerro de Ouro). Na proposta, Mariana Magno também colabora com alguns textos. 

Destino

Eu sou aquela coruja salva depois de um ataque olhos esbugalhados, um deles para fora. Pega por um moço que me levou a quem soubesse me tratar. Eu sou essa coruja cuidada por um, por outro e outro Que pensei que pudesse levantar voo e que no menor desaviso paralisei no ar. Eu sou a coruja que o gavião veio e pegou. Do destino não se voa. Para Gustavo. Depois de várias histórias animalescas... coruja, maritaca, borboleta, periquito, gavião, gato, rato.

Corredor

 Ela encontrou uma barata no sapato. Escândalo. Adolescente. Havia quem matasse o inseto. O pai. Sem a repreender, matou... limpou o chão. Deu fim àquele bicho.    Ela encontrou a barata na cozinha, depois na sala, no quarto, um dia até passou por um corredor de baratas mortas, semivivas, vivas. Não se importava mais.     Ali, ela sabia que não teria a quem gritar.

Crescendo

Ele (6 a.), na hora de dormir, depois de um longo silêncio, pergunta:  tia, vida é uma coisa séria?   ... ... [ela respira] 27/10/15  Brincando

Vide bula

Das coincidências de uma tarde no Pronto Socorro: A enfermeira chama o senhor Sebastião. Um senhor e um rapaz, parecendo seu filho, se manifestam. Uma outra moça se levanta e diz que Sebastião é o pai dela.  A enfermeira, séria e com humor, pede para que eles não briguem pelo Sebastião. E qual o sobrenome? Sebastião Martins. Sorrisos. Ambos são Martins.  Risos ecoam naquela sala de medicação, em que entra paciente, sai paciente, recebem medicação na veia: soro, Tramal, Bromoprida. A ambiguidade se desfaz pelo terceiro nome. E aí, pai e filho entendem o porquê de não terem sido eles na primeira vez que ouviram o nome na sala de espera. Há dor de cabeça, no estômago, nas costas, dos nervos e do coração. Macas, cadeiras, acompanhantes à espera. Um outro senhor com cara e aspecto jovial também está na sala e reconhece um dos Sebastião. Se olham e se reconhecem. Foram criados juntos em um bairro ali da cidade. Sebastião já havia reconhecido o outro há um tempo. O outro

Não, falar não é fácil!

Cresci ouvindo, em situações diversas, que “falar é fácil, fazer que é difícil”. E, por muito tempo, nem questionei isso. Mas o próprio ato de não refletir sobre isso já marca uma eficiência desse discurso de falar versus fazer. “Já que não posso fazer, não vou nem falar.”  E isso se repete, se repete... Quando (nem) nos damos conta, estamos falando para não falar e já não falamos mais de nada, nem de nós, nem de... Desaparecemos em meio aos pré-julgamentos ( de quem?! ) porque não dá para falar, porque não posso falar, porque não é legítima a minha fala. Falar o que mesmo?! Resolvi, então, elencar alguns motivos pelos quais falar não é fácil. E, digo, falar em primeira pessoa é mais difícil ainda! Quantas vezes ouvimos em alguma aula de redação que não podíamos escrever em primeira pessoa? “Ah! Não posso escrever em primeira pessoa!” Não eu . Continuo: falar é difícil porque me posiciono, porque me mostro vulnerável, porque posso entrar num combate ao invés de debate, porque